A oferta de cerca de US$ 53 bilhões feita por Stripe e Advent International para comprar a PayPal está sendo interpretada por executivos de pagamentos e cripto como um sinal de que a próxima fase dos pagamentos digitais será definida por empresas capazes de combinar escala de consumo com infraestrutura cripto, auditável e pronta para fiscalização.
A Reuters informou que Stripe e Advent apresentaram uma proposta conjunta para adquirir a PayPal por US$ 60,50 por ação, avaliando a companhia em mais de US$ 53 bilhões. A oferta implica um prêmio de 28% sobre o último fechamento da ação da PayPal e conta com cerca de US$ 50 bilhões em financiamento bancário já comprometido. Segundo a agência, a PayPal ainda não respondeu formalmente à proposta.
A potencial transação uniria a infraestrutura voltada a comerciantes da Stripe com a base de consumidores da PayPal, a franquia do Venmo e os produtos cripto já existentes. Juntas, as plataformas poderiam processar algo em torno de US$ 3,7 trilhões por ano, num momento em que o valor de mercado da PayPal despencou de um pico de cerca de US$ 360 bilhões em 2021 para algo próximo de US$ 36 bilhões antes da oferta vir à tona.
Para parte dos executivos do setor, essa derrocada não é apenas uma história de perda de espaço no checkout digital. Ela reflete uma mudança mais profunda no tipo de evidência que empresas de pagamento precisam apresentar.
Em conversa com a Yellow.com, Joe David, CEO do Nephos Group, disse que a perda de valor da PayPal coincidiu com o aumento da complexidade em transações internacionais e em conformidade cripto, um desafio difícil para sistemas legados.
“O valor da PayPal caiu de US$ 360 bilhões para US$ 36 bilhões não porque as pessoas deixaram de usar pagamentos digitais, mas porque o ambiente regulatório de transações cross-border e cripto se tornou algo para o qual os sistemas legados não foram desenhados”, afirmou David.
Segundo ele, a Stripe percebeu essa mudança antes e passou a construir para um ambiente em que prova de conformidade é tão importante quanto velocidade de transação.
“O verdadeiro valor aqui não está só na eficiência de processamento, mas em ter uma plataforma capaz de comprovar, instantaneamente, a origem e o status de compliance de cada transação — exatamente o que reguladores agora esperam”, disse.
“O espaço entre ‘transação processada’ e ‘transação defensável em uma auditoria’ é hoje onde se concentra a maior parte do atrito no fintech, e esse negócio é uma aposta de que quem fechar essa lacuna mais rápido vai comandar a próxima década dos pagamentos digitais.”
“Trilhos” cripto caminham para o coração dos pagamentos
A camada cripto é central para o interesse que a proposta desperta além do círculo tradicional de fintechs.
A Stripe concluiu em fevereiro de 2025 a aquisição da Bridge, que lhe deu infraestrutura de stablecoins para empresas que movimentam recursos globalmente. A PayPal já oferece serviços de cripto via PayPal e Venmo, com a Paxos informando que parte dos serviços de custódia, negociação e transferência nessas plataformas é prestada pela Paxos Trust Company. A PYUSD também é emitida pela Paxos, e não pela PayPal ou pelo Venmo.
A PayPal informa a comerciantes que aceitar PayPal dá acesso a uma rede de mais de 400 milhões de contas ativas. Esse alcance, somado à infraestrutura para desenvolvedores da Stripe e ao stack de stablecoins da Bridge, é o que alguns executivos de blockchain veem como o grande prêmio estratégico.
Stefan Deiss, cofundador e CEO da The Hashgraph Group, diz que a proposta mostra que a infraestrutura de pagamentos tradicional está convergindo, de forma muito mais direta, para “trilhos” cripto.
“Essa oferta sinaliza que a infraestrutura de pagamentos mainstream está se alinhando aos trilhos cripto em uma escala maior do que jamais vimos”, afirmou Deiss.
Na visão dele, uma Stripe-PayPal combinada conectaria uma base massiva de consumidores ao acesso a Bitcoin via integração da PayPal com a Paxos e a infraestrutura de stablecoins via aquisição da Bridge pela Stripe.
“Um alcance dessa magnitude normaliza a adoção de cripto em escala”, disse.
A adoção do Bitcoin (BTC) também poderia ganhar tração se os recursos de negociação cripto já existentes na PayPal forem amplificados pela malha de comerciantes da Stripe, acrescentou. Nesse arranjo, o modelo “developer-first” da Stripe e a confiança de varejo construída pela PayPal podem tornar a aceitação de cripto mais simples para as empresas.
“Quando os dois lados da transação operam nos mesmos trilhos habilitados para cripto, você remove a fricção que historicamente limitou a adoção”, disse Deiss.
Ainda assim, a oportunidade em cripto vem acompanhada de desafios regulatórios e operacionais. Deiss avalia que a operação deve atrair escrutínio antitruste, dado o peso combinado das duas empresas, enquanto a regulação de stablecoins tende a definir como PYUSD e Bridge poderiam funcionar sob um mesmo controlador.
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O Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês) afirmou neste mês que stablecoins ainda representam apenas uma fração mínima dos pagamentos internacionais — estimada em menos de 0,2% do volume total de transações cross-border em 2025, segundo algumas métricas. O mesmo relatório do FSB estima em cerca de US$ 200 trilhões o volume global de pagamentos internacionais em 2024, destacando o quão incipiente ainda é o uso de stablecoins em pagamentos, apesar do interesse crescente da indústria.
O Federal Reserve, banco central dos EUA, também já indicou que stablecoins de pagamento podem reduzir parte das fricções das transações cross-border, por serem menos custosas que manter agências no exterior ou acessar redes de bancos correspondentes — ao mesmo tempo em que alerta que seu crescimento traz implicações para a política monetária e a liquidez bancária.
Bancos testam o risco de ficarem presos a um único fornecedor
Para bancos e processadoras, a proposta levanta outra questão: a dependência de infraestrutura.
Julian Farley, diretor de vendas para Reino Unido e Europa na BPC, diz que a oferta não é apenas um movimento de consolidação de mercado; ela muda também como as instituições precisam enxergar as plataformas das quais dependem.
“O acordo Stripe-PayPal traz uma questão de arquitetura para bancos e processadoras que vai além de consolidação”, afirmou Farley.
Ele aponta a combinação de uma empresa de pagamentos com uma gestora de private equity como fonte adicional de incerteza para instituições que hoje se apoiam em serviços da Stripe ou da PayPal.
“Quando duas grandes plataformas de pagamento se unem, você introduz uma camada nova de complexidade decisória: uma empresa operacional de pagamentos e um fundo de private equity, com incentivos e horizontes de investimento diferentes”, disse.
Isso pode afetar o rumo dos produtos, os modelos de precificação e os roadmaps de integração. Para bancos, processadoras e grandes varejistas, a questão passa a ser se seus próprios sistemas de pagamento têm flexibilidade para se adaptar caso a estrutura de controle e as prioridades estratégicas mudem.
“A dúvida não é se haverá consolidação — isso quase certamente vai acontecer —, mas se sua arquitetura de pagamentos consegue se adaptar quando o controlador muda e as prioridades estratégicas se deslocam”, afirmou.
Na visão dele, bancos que hoje operam partindo da premissa de vendor lock-in — dependência concentrada em um único fornecedor — estão diante de um teste prático. Instituições com arquitetura modular e flexível tendem a estar melhor posicionadas do que aquelas fortemente acopladas a um único provedor de pagamentos.
IA, comércio automatizado e inclusão financeira entram na equação
A proposta também surge em um momento em que a PayPal tenta se reposicionar para a era do comércio impulsionado por IA.
Em outubro de 2025, a PayPal lançou seus serviços de “agentic commerce”, afirmando que a solução Agent Ready permitiria a comerciantes existentes aceitar pagamentos em superfícies de IA mantendo mecanismos de detecção de fraude, proteção ao comprador e resolução de disputas. A empresa diz ainda que seus produtos de comércio com IA foram desenhados para ajudar negócios a vender em experiências mediadas por agentes e a aceitar pagamentos de forma nativa em canais de IA.
David Sherman, estrategista de IA e inclusão financeira na io.net, avalia que a oferta da Stripe e da Advent pode acelerar o acesso mais amplo a serviços financeiros digitais — desde que a próxima camada de infraestrutura seja construída com mercados negligenciados em mente.
“A proposta Stripe-Advent pela PayPal sinaliza um ponto de inflexão interessante para pagamentos digitais, que pode acelerar a inclusão financeira dos 1,4 bilhão de desbancarizados no mundo”, disse Sherman.
O Banco Mundial estima que 1,4 bilhão de adultos seguem sem conta bancária globalmente, enquanto serviços financeiros digitais podem reduzir custos e ampliar o alcance entre populações subatendidas e pequenos negócios.
Sherman afirma que a reconfiguração do setor abre espaço para uma infraestrutura voltada a usuários como recebedores de remessas, usuários de dinheiro móvel (mobile money) e pequenos comerciantes em mercados emergentes.
“A mãe solo em Lagos que usa dinheiro móvel para receber remessas, ou o pequeno comerciante na zona rural da Índia que depende de carteiras digitais, têm muito a ganhar com essa nova onda de infraestrutura que está sendo construída agora”, afirmou.
Ele conecta a guinada da PayPal em direção à IA a uma mudança mais ampla na forma como serviços financeiros podem ser entregues. À medida que plataformas tradicionais otimizam operações, computação distribuída e infraestrutura descentralizada tendem a reduzir o custo de implantação de ferramentas financeiras baseadas em IA em mercados antes considerados caros demais para atender.
“Isso não é teórico”, enfatizou Sherman. “Recursos de computação distribuída já permitem que instituições financeiras levem ferramentas de IA para mercados que antes eram economicamente inviáveis.”
A proposta ainda não se converteu em acordo fechado. A PayPal não aceitou publicamente a oferta, e uma eventual análise regulatória seria um importante obstáculo caso as negociações avancem.
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