Apple recupera coroa de empresa mais valiosa e encerra reinado de 12 meses da Nvidia

Apple recupera coroa de empresa mais valiosa e encerra reinado de 12 meses da Nvidia

Apple superou a Nvidia no fechamento do pregão desta segunda-feira e retomou o título de empresa mais valiosa do mundo, encerrando cerca de 12 meses de domínio da gigante dos chips de IA.

O valor de mercado da fabricante do iPhone ultrapassou o da Nvidia justamente quando a grande aposta de Wall Street em IA começou a dar sinais de cansaço.

A divulgação de resultados da Apple em 30 de julho será a última teleconferência trimestral do CEO Tim Cook antes da transição de comando para John Ternus.

Uma reportagem da CNBC publicada na segunda-feira confirmou que a virada aconteceu no fechamento do mercado. Analistas de Wall Street projetam que a Apple reporte US$ 108,9 bilhões em receita no terceiro trimestre, número que indicaria um crescimento consistente de faturamento, mesmo com a companhia avançando mais agressivamente em recursos de IA embarcados em seus dispositivos.

Como a Apple desbancou os 12 meses impressionantes da Nvidia

A escalada da Nvidia ao posto de empresa mais valiosa do planeta foi impulsionada quase integralmente pela demanda por suas GPUs H100 e sucessoras.

Esses processadores alimentam as cargas de trabalho de treinamento e inferência por trás de praticamente todos os grandes modelos de linguagem, da família GPT, da OpenAI, ao Claude, da Anthropic. Em termos simples: treinar um modelo de linguagem de grande porte exige rodar bilhões de operações matriciais em paralelo, distribuídas por milhares de chips.

A arquitetura de GPU da Nvidia foi desenhada sob medida para esse tipo de tarefa, o que lhe deu um quase-monopólio sobre os principais laboratórios de IA, que ainda não contam com alternativas viáveis em grande escala. A demanda persistente empurrou a ação da Nvidia a patamares que, em determinado momento, levaram o valor de mercado da companhia a superar US$ 3 trilhões.

A volta da Apple ao topo reflete dois vetores que se moveram ao mesmo tempo.

As ações da Nvidia caíram quase 5% na segunda-feira, em meio a novas dúvidas sobre um suposto arranjo de financiamento de US$ 250 bilhões com a OpenAI. A Apple, por sua vez, manteve firme sua cotação, com investidores se posicionando para os resultados de quinta-feira e para a troca de comando para Ternus, executivo de design de produto amplamente visto como o nome capaz de acelerar o roteiro de hardware de IA da empresa.

Apple retoma posto de empresa mais valiosa em meio à corrida pelo hardware de IA

Essa transição de liderança pesa mais do que uma troca de CEO convencional.

Ternus foi o arquiteto da linha de chips M-series, que deu aos Macs e iPads uma vantagem de desempenho relevante em relação a concorrentes baseados em Intel. Sua promoção sinaliza que a Apple pretende disputar a era da IA apostando em silício proprietário e inferência diretamente no dispositivo, em vez de depender de gastos crescentes com GPUs em nuvem.

Essa estratégia contrasta fortemente com o modelo da Nvidia, que está ancorado na venda de grandes clusters de computação para hyperscalers e laboratórios de IA.

A Apple processa cargas de trabalho de IA diretamente no aparelho por meio do Neural Engine, um bloco dedicado de processamento presente em todos os chips A-series e M-series desde 2017.

O Neural Engine é uma área específica do silício desenhada para acelerar operações de aprendizado de máquina em tarefas como reconhecimento de imagem, processamento de voz e sugestões de texto generativo, sem acionar a CPU ou GPU principal.

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A inferência local mantém os dados do usuário no próprio dispositivo, elimina a latência de ida e volta a um servidor remoto e reduz os custos recorrentes de infraestrutura associados a funcionalidades de IA baseadas em nuvem. Para a Apple, essa abordagem transforma cada iPhone e Mac vendido em um nó autônomo de computação em IA, fazendo de sua base instalada — superior a 1 bilhão de aparelhos ativos — uma vantagem de distribuição difícil de replicar por empresas focadas apenas em data centers.

Entender por que isso torna a Apple uma empresa valiosa de forma mais duradoura exige separar gasto com infraestrutura de IA de receita efetiva de IA.

A Nvidia ganha dinheiro na fase de construção da indústria, vendendo “pás e picaretas”. A Apple captura valor na fase de consumo, embutindo capacidades de IA em produtos pelos quais o consumidor já aceita pagar prêmio — e que costuma trocar em ciclos de dois a três anos.

O que a virada de valor de mercado sinaliza para investidores em IA

A ultrapassagem de valor de mercado é um retrato de um dia, não um veredito de tendência.

A Nvidia segue sendo o grande alicerce estrutural da pilha de computação para IA, e sua taxa de crescimento de receita ainda supera com folga a da Apple. Um único pregão não reescreve esse quadro, e qualquer analista que trate o fechamento de segunda-feira como uma transferência definitiva do título de empresa mais valiosa estaria indo longe demais.

O que o fechamento de segunda captura, porém, é a crescente preocupação do mercado com a possibilidade de o ciclo de investimentos em infraestrutura de IA estar se aproximando de um teto.

As ações da Nvidia recuaram no mesmo dia em que diversos nomes expostos ao tema de IA também cederam. A relativa estabilidade da Apple nesse cenário sugere que o mercado começa a privilegiar empresas cuja receita de IA já flui por produtos de consumo existentes, e não apenas por projetos de construção de data centers.

Sob essa ótica, ser a empresa mais valiosa passa menos por quem ergueu a maior infraestrutura de IA e mais por quem tem o caminho mais claro para monetizar IA junto ao consumidor final.

A teleconferência desta quinta-feira vai testar se essa rotação tem fôlego — e se a Apple conseguirá manter o status de empresa mais valiosa na entrada da era Ternus.

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